Com presença tímida da esquerda, manifestação de oposição não faz frente a atos pró-Bolsonaro

  • Camilla Veras Mota, Felipe Souza e Felix Lima
  • Da BBC News Brasil em São Paulo
Protesto reuniu 6 mil pessoas, segundo a PM

Crédito, JAÉLCIO SANTANA/fotos publicas

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Protesto reuniu 6 mil pessoas, segundo a PM

Cinco dias depois que dezenas de milhares de pessoas de diferentes Estados se reuniram em São Paulo para apoiar o presidente, movimentos de oposição se reuniram na mesma avenida Paulista para pedir o impeachment de Jair Bolsonaro.

O quórum, contudo, foi bem distinto. Apesar da rejeição elevada de Bolsonaro, Movimento Brasil Livre (MBL) e Vem pra Rua fizeram atos menores em São Paulo e nas demais capitais em que haviam convocado manifestações. Conforme as estimativas da Polícia Militar, foram 6 mil pessoas na avenida Paulista, ante 125 mil no 7 de setembro.

A ideia inicial era reunir uma espécie de frente ampla com grupos de esquerda. O Partido dos Trabalhadores (PT), contudo, e movimentos como os do Sem Teto vinham mostrando resistência sob o argumento de que os grupos, assim como o próprio bolsonarismo, tinham raízes na extrema-direita.

O PDT de Ciro Gomes e o PCdoB, por outro lado, decidiram se juntar aos atos.

Em paralelo, MBL e Vem Pra Rua, que nasceram nos mega protestos de 2013, não mostraram a mesma capacidade de mobilização que tinham até 2015 e 2016, quando capitanearam grandes manifestações pelo impeachment da então presidente Dilma Rousseff.

Para a cientista política e pesquisadora do Cebrap Camila Rocha, os atos deste domingo mostram que "a construção de uma frente ampla com poder de derrubar Bolsonaro de fato não será fácil, ainda mais considerando que, por enquanto, tal movimento também não vem se expressando nas ruas".

Crédito, Luisa Furtado/Arquivo pessoal

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Atos ocorreram cinco dias após manifestações a favor do presidente

Domingo de sol na Paulista

No horário marcado para o início dos atos, por volta de 14 horas, com exceção dos ambulantes que vendiam mercadorias "Fora Bolsonaro", os primeiros quarteirões da avenida viviam um domingo como muitos outros. Debaixo de muito sol, os ciclistas iam e vinham pelo canteiro central, muita gente almoçava em mesas nas calçadas largas, tomava cerveja, fazia fila para comprar sorvete.

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Mais próximo do Museu de Arte de São Paulo (Masp), a fragmentação da oposição a Bolsonaro se mostrava de maneira didática no espaço de dois quarteirões. Um primeiro carro de som do Movimento Direita Digital reunia algumas dezenas enquanto, do outro lado da avenida, se viam os eleitores do Partido Novo em uma aglomeração laranja.

Alguns passos à frente, o carro de som do Movimento Brasil Livre (MBL), depois o toldo do PDT, o guarda-sol roxo do movimento Livres e, de frente para o prédio da Fiesp, o trio do Vem Pra Rua, com um inflável enorme de Bolsonaro e Lula abraçados.

O ex-presidente, aliás, foi um fator de fragmentação dentro dos movimentos de direita: enquanto o Vem Pra Rua pregava o "Nem Lula, Nem Bolsonaro" pelo microfone, o MBL se concentrava no "Fora Bolsonaro".

O grupo decidiu abandonar o mote inicial da convocação para os protestos, que defendia o fortalecimento de uma terceira via para as eleições de 2022, para acomodar a esquerda no palanque. Do carro de som do MBL discursaram Ciro Gomes (PDT) e o deputado federal Orlando Silva (PCdoB).

"Acredito que a divisão entre petismo e antipetismo entre as lideranças políticas e a população em geral contribua muito para a divisão", comenta a cientista política Camila Rocha.

A porta-voz do Vem Pra Rua, Luciana Alberto, afirma que o grupo aderiu à pauta unificada do "Fora Bolsonaro", mas entende que defender o impeachment do presidente não exclui a legitimidade de "falar do Lula nunca mais".

"São pautas que convergem."

A ideia dos atos, acrescenta a advogada, era que fossem representativos de toda a sociedade. "E uma frente ampla tem que considerar essa parcela da população".

No fim do dia, o saldo da manifestação, para ela, foi de que reuniu mais gente que o esperado. "Me surpreendeu a quantidade de pessoas num final de feriado, um domingo muito quente, em um momento em que as pessoas estão despertando para as pautas políticas."

A indignação contra o presidente, que se traduz no índice de rejeição elevado de Bolsonaro, não necessariamente significa que as pessoas se sentem motivadas a lutar por mudanças, justifica a advogada. Movimentos como o de hoje, em sua avaliação, vão "despertando nelas essa consciência", que deve vir com o tempo.

O vereador e porta-voz do MBL, Rubinho Nunes (PSL), também disse à BBC News Brasil julgar que a adesão foi maior que a imaginada, com saldo positivo. Na conta dos organizadores, 55 mil pessoas foram à avenida Paulista.

"Foram pessoas com ideologias distintas, mas unidas contra o que o Bolsonaro representa. Todos os que compareceram, em defesa do Ciro Gomes, do João Doria e do Amoedo foram respeitosos, independentemente das divergências políticas. As pessoas têm uma preocupação maior em manter um ambiente democrático. É nos unirmos hoje para poder discordar amanhã", afirmou.

Crédito, Felix Lima

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Trabalhador da construção civil Francisco Lino Neto disse que foi à Paulista 'pela democracia'

A reportagem questionou Rubinho, que também é fundador do MBL, sobre a presença de pessoas ligadas a outros partidos, como o PT, um alvo histórico do grupo.

"Eu respeito muito e parabenizo essa pessoa pela grandeza democrática que ela representa. Esse foi um ato supra ideológico com o objetivo de barrar a manutenção de um protótipo de ditador na presidência. Nesse momento, bandeiras ideológicas são deixadas de lado quando Jair Bolsonaro representa um risco. Stalin e Churchill estiveram no mesmo lado contra um mal maior, que é o que temos no Brasil", afirmou.

Nas redes sociais, manifestantes pró-Bolsonaro disseram que os atos fracassaram. O fundador do MBL disse que o mesmo foi dito pela ex-presidente Dilma Rousseff num ato promovido pelo grupo no dia 1° de novembro de 2014.

"Aquilo virou um marco, e depois levamos milhões de pessoas às ruas em 2015 e 2016. Mexemos com a corja bolsonarista e agora as manifestações vão crescer e fazer a diferença", disse.

Crédito, Felix Lima/ BBC News Brasil

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Eleitor de Ciro, empresário Ricardo Brandão foi à Paulista para defender auditoria da dívida

Pandemia, economia, democracia

Entre os manifestantes na avenida, a gestora financeira Luisa Furtado - que se considera liberal na economia e nos costumes - diz que foi ao protesto para pedir o impeachment de Bolsonaro principalmente por conta das ações do presidente na pandemia.

"Eu fui para a Paulista reivindicar a queda dele porque ele nunca me representou e foi o oposto do que eu acredito. Perdi meus avós e meu tio com covid-19", afirmou.

Para ela, os familiares foram contaminados por pessoas que acreditavam em notícias falsas sobre a pandemia e que se tornaram vetores da doença.

Ela disse que em 2018 votou nulo no segundo turno porque não se identificava com o PT nem com Bolsonaro. Hoje, afirma buscar uma opção "mais técnica e menos populista" que traga soluções para os mais ricos e mais pobres.

Crédito, Luis Furtado/Arquivo Pessoal

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Reação de Bolsonaro à pandemia foi principal fator que levou Luisa à Paulista neste domingo

Questionada pela reportagem, declarou que votaria no governador de São Paulo, João Doria (PSDB), caso as eleições presidenciais fossem hoje.

"Ele peitou o Bolsonaro e temos uma vacina do Brasil por causa dele. Não gosto dele, nunca votei antes, mas eu acho que seria uma opção. Não podemos focar numa opção ideal, mas uma opção possível, e ele foi alguém que fez uma coisa positiva nesse cenário negativo."

Para ela, a manifestação só não foi maior porque muitas pessoas ainda têm medo de possíveis atos de violência, tanto dos manifestantes quanto policial, durante os protestos. E avaliou como positiva a presença de pessoas com partidos e ideologias diferentes.

"A presença dos partidos de esquerda demonstra que a gente está unido em prol da democracia. São pessoas que buscam as mesmas coisas por caminhos diferentes", afirmou.

Os poucos manifestantes de esquerda que foram à Paulista no domingo faziam coro ao argumento de que o importante era unir uma frente ampla em defesa da democracia.

"Isso é democracia. Quem discordar de mim, está no direito dele. Se o cara mandar eu sair porque estou com a máscara do PT, está dentro do direito dele. Isso é democracia", disse, de camisa vermelha, Francisco Lino Neto, que saiu da zona leste em um grupo de 15 amigos.

"Mas não é um problema dividir o ato com eles. Não sou filiado ao PT, mas sou simpatizante do partido há 40 anos, desde a fundação."

Desempregado, o trabalhador da construção civil afirma que o governo é "péssimo" e diz estar na rua também por mais emprego e maior celeridade na vacinação contra a covid-19.

Já o empresário Ricardo Brandão, que saiu sozinho de São Bernardo do Campo, na Grande São Paulo, diz que foi à Paulista para defender especialmente a auditoria da dívida pública.

Também se disse a favor do impeachment de Bolsonaro, a pauta que acomodava as diferentes ideologias que foram protestar no domingo. Em seu ponto de vista, "isso pacificaria o Brasil".

O mineiro votou em Ciro Gomes no primeiro turno das eleições de 2018 e diz que foi "obrigado" a votar em Fernando Haddad (PT) no segundo turno "porque era o menos pior".

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