Quem era Salomé, a menina que Santo Agostinho transformou em 'mulher sem-vergonha'

  • The Conversation*
  • Christian-Georges Schwentzel
Legenda do áudio,

Em áudio: Quem era Salomé, a menina que Santo Agostinho 'sensualizou'

Entre os arquétipos femininos da Antiguidade aclamados pela cultura pop nos últimos anos estão Cleópatra, as amazonas e Afrodite.

Mas Salomé, uma heroína adorada até o início do século 20, caiu em relativo esquecimento. Uma injustiça que deve ser reparada!

Os Evangelhos nos contam sobre o assassinato de João Batista no final de um famoso banquete por volta do ano 29 em que se diz que Salomé teria ralizado uma dança perante os convidados. O objetivo da festa era comemorar o aniversário de Herodes Antipas, o tio-avô da jovem e tetrarca, ou seja, governador de alguns territórios no sul do Oriente Médio em nome dos romanos.

A dança de Salomé ocorreu em uma das fortalezas de Antipas, Maqueronte, que o escritor francês Gustave Flaubert (1821-1880), em "Herodíade", do livro Três Contos, publicado em 1877, muito acertadamente situa a leste do Mar Morto, na atual Jordânia.

Antipas havia prendido e encarcerado João Batista, um pregador popular cujas violentas críticas contra a ordem estabelecida poderiam ter incitado uma revolta.

João Batista também foi considerado culpado de insultos contra Herodíade, esposa de Antipas.

Herodíade não se cansava de exigir que o insolente profeta fosse executado.

Crédito, Getty Images

Legenda da foto,

Tímpano da Catedral de Rouen, em que Salomé pode ser vista dançando durante o banquete de Antipas e, à direita, entregando a cabeça de São João Batista a Herodíade

Mas Antipas não estava certo disso, porque sabia que João Batista era tido como um homem justo e santo, como podemos ler no Evangelho segundo São Marcos.

O aniversário de Antipas ofereceu a Herodíade o momento propício de alcançar seu objetivo. A esposa do tetrarca compareceu à festa acompanhada da filha Salomé, fruto de um casamento anterior.

Durante o banquete, a filha de Herodíade começou a dançar, agradando a Herodes e seus convidados. O tetrarca, como um gesto de gratidão, lhe fez uma promessa: "Tudo o que você me pedir, eu darei a você, mesmo que seja metade do meu reino."

Salomé, então, sob a influência de sua mãe, reivindicou "em um prato, a cabeça de João Batista".

O tetrarca não se atreveu a recusar, para não ficar mal diante de seus convidados. Ele imediatamente enviou um guarda para decapitar João Batista em sua cela. E Salomé recebeu a cabeça, que deu à sua mãe.

A princesa Salomé nasceu no ano 18 e, portanto, tinha apenas 11 ou 12 anos naquela época.

O termo grego pelo qual ela é definida no Evangelho é "korasion", um diminutivo neutro de "korè" (menina). A palavra "korasion" não apenas evoca uma garota, mas também a priva de toda feminilidade.

A dança de Salomé não era, portanto, uma dança erótica - a menos que os evangelistas estivessem sendo irônicos.

Ou seja, a hipótese de que uma mulher sedutora tivesse realizado aquela dança parece improvável, de acordo com as escrituras.

Na origem do mito da dança de Salomé, talvez não houvesse nada mais do que a performance de uma menina por ocasião do aniversário de seu tio-avô.

Crédito, Wikimedia Commons

Legenda da foto,

Banquete de Herodes, de Lucas Cranach o Velho (1531), Hartford, Connecticut

Salomé, uma menina transformada em uma mulher 'sem-vergonha'

Salomé sofre uma metamorfose como figura erótica três séculos após a escrita dos Evangelhos, no Sermão 16 (Pela decapitação de São João Batista) de Santo Agostinho.

Aqui, Salomé mostra os seios no decurso de uma dança frenética: "Às vezes inclina-se de lado e mostra seu flanco perante os espectadores; às vezes, na presença destes homens, mostra os seios".

Dessa forma, Salomé se tornou uma adolescente sem-vergonha e fatal. Como outras figuras semelhantes nas sociedades patriarcais, ela personifica o perigo feminino contra o qual os homens devem se proteger.

A famosa dança pode muito bem ter ocorrido. No entanto, como aponta o historiador americano Harold W. Hoehner, os Evangelhos não atribuem nenhuma conotação erótica à performance de Salomé.

Santo Agostinho criou, assim, um mito em torno de Salomé e sua dança, um grande sucesso desde a Idade Média.

No arco esculpido sobre o pórtico de São João, na catedral de Rouen, que Flaubert conhecia bem, pode-se ver a acrobática figura de Salomé se contorcendo de ponta cabeça, com as mãos no chão e as pernas para o alto.

No século 15, o pintor italiano Benozzo Gozzoli retratou uma adolescente orgulhosa que não hesita em atrair Antipas com seu olhar.

Crédito, Wikimedia Commons

Legenda da foto,

A dança de Salomé, de Benozzo Gozzoli

Atordoado, o tetrarca tem a mão direita imobilizada sobre o coração, enquanto, com a outra, agarra uma faca de cozinha erguida sobre a mesa do banquete, um símbolo fálico discreto que sugere sua excitação.

Salomé também é retratada, repleta de confiança, por Lucas Cranach, o Velho (1531): ela não parece impressionada com a cabeça ensanguentada que carrega no prato, como o troféu de sua vitória, enquanto Antipas faz um gesto de desgosto.

Cranach destaca o contraste entre a beleza orgulhosa de Salomé e a figura rotunda do tetrarca, com seu olhar pesado. O artista também brinca com o contraste entre a elegância da jovem virgem e o rosto do profeta decapitado, mesclando erotismo e crueldade em uma obra que pode ser qualificada como sádica.

Ameaça feminina em dobro

Em 1877, quando publicou "Herodíade", Flaubert lembrou a figura da contorcionista sobre o pórtico da Catedral de Rouen. Ele também se inspirou em suas próprias experiências, especialmente nas bailarinas Kuchuk Hanem e Azizeh, que conheceu no Egito.

A personagem de Salomé expressa tanto a atração quanto o medo causado pelo poder de sedução. A queda do santo simboliza a castração do homem alienado pelo desejo.

Um desejo que enfeitiça e impede qualquer julgamento, despertado pela simples visão de partes do corpo feminino: "Aproximou-se um braço nu, um braço jovem e encantador", escreve Flaubert.

O físico da jovem está fragmentado. As partes de seu corpo ajudam a despertar o desejo do espectador: "Os arcos de seus olhos, a calcedônia em suas orelhas, a brancura de sua pele".

Crédito, Wikimedia Commos

Legenda da foto,

A dança dos sete véus, de Gaston Bussière (1925)

As roupas também são detalhadas, destacando a carne que a torna ainda mais atraente: "Um véu azulado que cobre o peito e a cabeça", "sapatinhos de penas de beija-flor".

Flaubert expressa uma espécie de fetichismo pelos sedutores adornos femininos orientais. Esta imagem foi posteriormente utilizada no cinema, na dança de Brigid Bazlen encarnando Salomé no filme O Rei dos Reis (1961), de Nicholas Ray.

Embora o título do conto de Flaubert se refira apenas a Herodes, a obra é construída sobre uma duplicação da ameaça feminina por meio das figuras intimamente relacionadas da mãe, verdadeira mestre de cerimônias, e sua filha, não menos formidável, como executora da vontade materna.

É assim que Antipas cai nas redes dessas duas mulheres fatais: a manipuladora e a encantadora.

Idolatria em baixa

Depois de Flaubert, Salomé ainda povoou o imaginário ocidental por algumas décadas. Em 1891, o escritor irlandês Oscar Wilde inventou o tema da dança dos sete véus para sua peça Salomé, posteriormente trazida para a música pelo compositor e maestro alemão Richard Strauss (1905). A figura de Salomé atingiu então o seu apogeu artístico.

Mais tarde, foi encarnada no cinema por algumas atrizes fulgurantes como Rita Hayworth (Salomé, de William Dieterle, 1953) ou Brigid Bazlen (O Rei dos Reis, de Nicholas Ray, 1961). E em 1988, Imogen Millais-Scott desempenhou perfeitamente o papel de uma lolita atrevida em Salomé, de Ken Russell.

Mas na segunda metade do século 20, o fascínio do público pela dançarina bíblica começa a evaporar com o surgimento de novos ícones femininos ou feministas mais contemporâneos e positivos.

Salomé não é mais um ídolo de nosso tempo.

*Christian-Georges Schwentzel é professor de História Antiga na Universidade de Lorraine (França)

Este artigo foi publicado originalmente no site The Conversation. Clique aqui para ler o artigo original em espanhol.

Já assistiu aos nossos novos vídeos no YouTube? Inscreva-se no nosso canal!